A obra The impossible task, uma instalação aparentemente frágil formada por azulejos engastados em sal evoca e recupera a memória das salinas numa paisagem modificada, bem como as marcas de simbiose entre natureza e cultura, associando à paisagem trabalhada pelo homem a ideia de um espaço doméstico, marcado pela brancura e por uma escala humana. Este é um trabalho que se funde com o solo e que pode ser relacionado com uma série de investigações que a artista desenvolveu sobre zonas costeiras e sobre o mar, das quais resultam instalações de apurado sentido estético, caracterizadas por explorações matéricas e formais, e também simbólicas, com ligações a fenómenos de índole sociopolítico, relacionadas fundamentalmente com realidades e fenómenos migratórios. Evocando muitas destas referências da história coletiva, esta é uma peça também associada à vida pessoal da artista, já que constitui uma réplica do soalho do seu apartamento em Viena e que, dada a sua fragilidade, se constitui como um território vedado e que condiciona e impõe claros entraves à travessia e passagem. Estabelecendo uma fronteira imaginária ao espectador, evoca simbolicamente todas as proibições experienciadas nos fenómenos das mobilidades e migrações no contexto das sociedades contemporâneas. A instalação de Maria Trabulo permite-nos igualmente introduzir a referência da manualidade na criação artística, no fazer manual realizado pelo homem, a que muitos artistas contemporâneos têm regressado, seja por via das técnicas utilizadas, seja por constituir por vezes um tema dos seus próprios processos artísticos. [Sandra Vieira Jürgens]
Exposições coletivas
2024: IMAGINÁRIO COLETIVO: Obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Museu de Aveiro / Santa Joana, Aveiro, Portugal
Bibliografia
Sandra Vieira Jürgens, «Ecologia de uma Coleção» in IMAGINÁRIO COLETIVO: Obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, agosto de 2024, cit. p. 10-11, rep. p. 19, 26, 27, 62-63.