A obra de Ana Cardoso evidencia uma prática de pintura abstrata que se caracteriza pela experimentação da variação geométrica dos suportes. Evitando o corpo pré-estabelecido, estático e unificador do espaço da tela, isto é, a configuração retangular da composição pictórica, os seus trabalhos assentam na exploração do shaped canvas, no recorte e na variação e multiplicação dos formatos do suporte material da pintura, o que confere aos trabalhos uma singularidade e diversidade plástica assinalável. Citando esta prática de pintura do modernismo tardio, sobretudo, associada aos artistas minimalistas, Ana Cardoso subverte, ainda assim, alguns dos seus valores, já que a qualidade rigorosa e geométrica do suporte (normalmente triangular, quadrada…) é contrabalançada com uma pintura de natureza gestual, orgânica, livre e espontânea. Moléculas (Pterodactylus, Matisse, Etc.) (2022-2023) pertence a este universo de composições com dimensões e configurações muito singulares que caracterizam a qualidade plástica da sua obra. Formando uma instalação de elementos que se conjugam e espraiam pela parede, como puzzles, este conjunto de telas joga também com o efeito de suspensão da estrutura modular da pintura, propondo uma mancha informal e ondulante de pintura, cujo universo cromático, poético e criativo presta tributo a Matisse, figura incontornável da história da pintura, citado no título da obra. [CAAC 2023]