Nos seus desenhos a tinta da china com colagem de fio de crina, Helena Almeida faz sair da superfície branca do papel linhas verdadeiras, traçadas manualmente as de tinta, coladas ao suporte as de fio. Num jogo de ambiguidades, Helena Almeida apresenta nas suas obras dois tipos de desenho, ou melhor, conjuga formas antagónicas de realizar um desenho: uma prática de desenho «tradicional» e uma prática de anti-desenho. O seu desenho «académico» constitui um verdadeiro desenho traçado, no qual as linhas são traçadas num plano com materiais como a tinta da china. Já no domínio da colagem ela explora as potencialidades de um desenho volumétrico, construído com materiais físicos. Estes desenhos mostram então, lado a lado, as linhas plásticas e o objecto real que é dado figurarem. Note-se que esta ideia é sugerida com grande eficácia, pois não se concretiza somente em desenhos-esculturas; dispondo-se na continuidade das linhas desenhadas, os fios de crina parecem evocar o processo da sua transmutação ficcional. Explorando novos meios de expressão baseados na articulação de planos pictóricos e volumes, Helena Almeida estabelece assim uma ponte entre a pintura e a escultura. É uma relação que, na sua produção artística, surge escorada numa permanente preocupação ao nível do entendimento das próprias leis de figuração e na representação enquanto forma de desconstrução do acto de criação artística. [Sandra Vieira Jürgens]